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É falso que imagem viral de rapariga a acender cigarro com foto do ‘ayatollah’ tenha sido tirada no Irão

Lisboa, 09 jan 2026 (Lusa Verifica) – A fotografia viral da rapariga iraniana a acender um cigarro com uma foto incendiada do líder supremo do Irão, Ali Khamenei, não foi tirada nos protestos que decorrem naquele país, mas sim num estacionamento de uma cidade do Canadá.

Alegação: mulher usa foto em chamas do 'ayatollah' Ali Khamenei para acender cigarro durante protestos no Irão

Desde quinta-feira, 8 de janeiro, tornou-se viral nas redes sociais uma fotografia de uma alegada rapariga iraniana a acender um cigarro com uma foto em chamas do 'ayatollah' Ali Khamenei, o líder supremo do Irão.

Várias contas nacionais e internacionais atribuem a imagem aos protestos que decorrem em várias cidades do Irão desde o início de dezembro, com manifestações diárias em dezenas de cidades do país: https://archive.ph/boLwf e https://archive.ph/YfXjY (exemplos), mas também há quem não tenha certezas sobre a autenticidade da foto: https://archive.ph/PZXDI.

Apesar disso, alguns internautas, incluindo figuras públicas, chama-lhe já “uma das imagens mais impactantes da revolução iraniana contra a tirania” (https://archive.ph/Aehvd e https://archive.ph/4YVs2), “a foto do ano” (https://archive.ph/xGHYh e https://archive.ph/PScFC) e um exemplo de coragem (https://archive.ph/QVdea).

Também há quem avance que se trata de “uma nova tendência [que] surgiu entre as mulheres iranianas”, dado que circulam mais imagens ainda não verificadas que parecem mostrar o mesmo gesto: https://archive.ph/UrxxV, https://archive.ph/dAqAu e https://archive.ph/J99NY (exemplos).

A foto também está a ser partilhada por alguns órgãos de comunicação social internacionais como sendo oriunda dos protestos no Irão: https://archive.ph/C2ODp, https://archive.ph/3fPIn, https://archive.ph/WLQQJ, https://archive.ph/7YTcD e https://archive.ph/Qbi1E (exemplos).

Factos: a foto foi tirada num parque de estacionamento nos arredores de Toronto, no Canadá

Inicialmente, a Lusa Verifica não conseguiu identificar a origem e o contexto em que a fotografia foi tirada, mas conseguiu geolocalizá-la num parque de estacionamento de uma zona de restauração na área de Oak Ridges, na cidade de Richmond Hill, situada nos arredores de Toronto, no Canadá.

Neste caso, as pesquisas reversas iniciais apenas permitiram encontrar a fotografia em dois ou três formatos diferentes, mas nenhuma conseguiu identificar o local. Para tal, a Lusa Verifica utilizou a versão gratuita da ferramenta Airbrush para remover a rapariga do centro da imagem, de forma a tentar obter uma aproximação à fachada do edifício que se vê ao fundo.

Após esse resultado obtido com a ajuda daquela ferramenta de inteligência artificial foram feitas novas pesquisas reversas através do Google Lens e um dos resultados apontou uma possível correspondência com o edifício da Biblioteca Pública de Oak Ridges, em Richmond Hill: https://archive.ph/2ASni.

Essa hipótese foi confirmada através do Google Maps, nomeadamente da vista de rua, ou Street View, que permitiu identificar e confirmar que o edifício na foto viral é o dessa biblioteca, bem como localizar o local da tomada da fotografia neste parque de estacionamento de uma zona de restauração, com elementos da foto em comum como o caixote do lixo, a vedação, toda a sinalética da zona e a biblioteca ao fundo: https://maps.app.goo.gl/o5wL4ksoscqux4yG8.

Apesar de não ter sido possível apurar a data e o contexto da foto numa primeira análise, era provável que se tratasse de uma foto de uma jovem iraniana, dado que naquela cidade do Canadá vive uma grande comunidade de refugiados iranianos (https://archive.ph/qMrUV, https://archive.ph/wBc66 e https://archive.ph/V3WHS), que nos últimos anos também realizou protestos contra as violações de direitos humanos no Irão: https://archive.ph/Zmwyx e https://archive.ph/UG6XL.

Posteriormente foi possível detetar a primeira publicação da imagem viral feita por uma rapariga iraniana, que vive em Toronto, colocada ‘online’ na manhã de quinta-feira em reação a outra foto semelhante que também circula nas redes deste a véspera: https://archive.ph/RauzN.

Noutra publicação em resposta a uma conta que duvidava da autenticidade da foto (https://archive.ph/wlo6H), a jovem partilhou também o vídeo do momento em que queimou a fotografia do 'ayatollah' Ali Khamenei (https://archive.ph/8Y2a), imagens que confirmam a localização já identificada.

Contraditório: “Nunca afirmei estar no Irão”

A Lusa Verifica conseguiu falar com a jovem iraniana Melika Barahimi, de 23 anos, atualmente refugiada no Canadá, que não contava tornar-se viral e acabar a receber ameaças de morte, como também denunciou no X (https://archive.ph/XKIAQ), nem que a foto fosse partilhada como sendo do Irão.

“Nunca afirmei estar no Irão. Fiz a foto para mostrar que sou contra este regime do qual fugi em março de 2025, porque a minha vida estava em perigo. Queria que fosse partilhada entre o meu povo, porque quero que saibam que ainda sou um deles apesar de ter sido obrigada a imigrar depois de o regime me ter condenado a anos de prisão por criticar Khamenei, mas agora estou preocupada que possam ameaçar a minha família”, explica Melika numa entrevista à Lusa.

Apesar das ameaças e preocupações, a jovem pretende manter ‘online’ a foto e o vídeo que divulgou posteriormente, “para que o mundo saiba” que está solidária com a luta dos seus concidadãos iranianos.

Avaliação Lusa Verifica: Falso

É falso que a foto viral da rapariga iraniana a queimar uma foto do 'ayatollah' Ali Khamenei tenha sido tirada durante os protestos que decorrem em várias cidades do Irão.

A Lusa Verifica localizou o local da fotografia numa cidade canadiana onde reside uma grande comunidade iraniana no exílio e confirmou que foi partilhada por uma jovem iraniana refugiada no Canadá, que a publicou em solidariedade com os protestos contra o atual regime.

Luís Galrão